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Caderno Mercado

Disputa na Anatel pela faixa de 6 GHz divide provedores e operadoras

Disputa na Anatel pela faixa de 6 GHz divide provedores e operadoras

As diretrizes da Agência Nacional de Telecomunicações para o aproveitamento do espectro radioelétrico de 6 GHz geraram um intenso confronto de interesses entre empresas de telecomunicações de grande porte e provedores regionais de internet no Brasil.

O impasse regulatório

O cerne da questão reside na alocação de espaço dentro dessa faixa de alta frequência, essencial tanto para a evolução das redes móveis de quinta e sexta gerações quanto para a melhoria da distribuição de internet sem fio em residências e escritórios. O descontentamento dos provedores de menor porte surgiu após a definição da entidade reguladora de destinar a maior parte do espectro superior para a telefonia celular.

A controvérsia ganha força no momento em que a agência finaliza consultas públicas fundamentais para definir as regras do futuro leilão do setor e os parâmetros de coordenação de frequência para conexões wi-fi.

Argumentos dos provedores regionais

Representantes dos provedores de internet argumentam que a limitação de espaço para os roteadores internos compromete a entrega de conexões ultrarrápidas aos consumidores, especialmente diante do avanço da fibra óptica.

O presidente da Abrint, Breno Vale, pontua a gravidade do cenário para as empresas do setor ao afirmar: “Temos associados entregando internet com 10 gigabits por segundo na casa dos assinantes. Se ele não tiver capacidade ali dentro de casa, [usando a faixa mais alta] para entregar mais velocidade, a gente vai morrer na praia”.

Diante disso, a entidade planeja questionar a decisão anterior da agência e defender um modelo de uso compartilhado do espectro entre as redes móveis e fixas, utilizando tecnologias de gestão automática de canais.

A posição das operadoras de telefonia

Em contrapartida, as grandes empresas de telecomunicação rejeitam qualquer formato de divisão que reduza a banda dedicada ao setor móvel. A Conexis, que representa as principais operadoras do país, sustenta que a separação atual segue parâmetros internacionais e atende às projeções de consumo de dados para o futuro.

O presidente da entidade, Marcos Ferrari, reforça a oposição ao modelo sugerido pelos concorrentes ao declarar: “Nós entendemos que [o compartilhamento] não convém, uma vez que a faixa é destinada para o móvel, então não faz sentido mesclar dentro do móvel também [essa] possibilidade” e complementa sobre a decisão da autarquia: “Talvez haja uma falta de compreensão em relação ao que já foi decidido”.

Como alternativa para suprir a demanda interna, o executivo aponta o uso de tecnologias como o Acesso Fixo Sem Fio, que capta o sinal diretamente das antenas de telefonia móvel sem a necessidade de infraestrutura cabeada.

A visão técnica e o futuro do 6G

A posição oficial da agência reguladora aponta desafios técnicos para a adoção imediata do compartilhamento de canais. Testes conduzidos pela instituição indicam que o uso simultâneo da mesma faixa por diferentes tecnologias pode gerar interferências mútuas indesejadas.

O conselheiro Alexandre Freire, contudo, pondera que a porta para novas avaliações permanece aberta por meio de ambientes experimentais. Segundo ele, “Portanto, o AFC não está fora da discussão sobre o futuro da faixa de 6 GHz […]. Se mecanismos de coordenação automática demonstrarem, em testes e condições reais, que conseguem assegurar a convivência entre diferentes tecnologias sem comprometer a qualidade e a previsibilidade das redes, esses resultados naturalmente passarão a integrar a avaliação regulatória da agência”.

O desfecho desse processo terá impacto direto na implementação futura da tecnologia 6G no país, cujas diretrizes prometem latência ultrabaixa e velocidades expressivas. O diretor do Inatel, Carlos Nazareth, resume o peso estratégico da decisão: “Sempre as disputas por banda de frequência acabam impactando nas gerações de tecnologias que estão em operação e nas tecnologias que estão por vir”.

Fonte: Folha - Tecnologia