Desaceleração da LVMH acende alerta no setor global de luxo
O enfraquecimento do poder de compra e a cautela dos consumidores na China impactaram diretamente o desempenho da LVMH no terceiro trimestre. Maior conglomerado de artigos de alto padrão do planeta, o grupo reportou números abaixo das projeções de analistas, intensificando as incertezas sobre a recuperação de uma indústria avaliada em US$ 350 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhão), que já enfrenta três anos de ritmo moderado.
Queda na divisão de moda e couro surpreende o mercado
No balanço trimestral, a receita orgânica da companhia — que desconsidera variações cambiais — avançou apenas 1% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando € 18,5 bilhões (US$ 20,7 bilhões). O resultado ficou aquém da expansão de 1,3% prevista pelo consenso da Visible Alpha. Logo após a divulgação, os papéis da empresa negociados em Nova York registraram desvalorização superior a 3%.
O revés mais expressivo ocorreu no segmento de moda e artigos de couro, responsável por quase metade do faturamento global da LVMH e que reúne marcas como Louis Vuitton e Dior. A divisão encolheu 5% em termos orgânicos, enquanto o mercado projetava uma retração bem mais branda, de 1,8%.
A reação do setor financeiro foi de prudência. “Acreditamos que os resultados provavelmente continuarão sendo um catalisador negativo para o setor todo”, disseram analistas do Bank of America em nota. Na mesma linha, o analista da RBC (Royal Bank of Canada), Piral Dadhania, disse que esperava uma “pressão moderada” sobre as ações da LVMH e de suas concorrentes após a divulgação dos resultados.
Outra desaceleração foi observada no segmento de joias e relógios, que inclui nomes como Tiffany e Bulgari. A divisão registrou crescimento de 6%, perdendo fôlego em comparação com a alta de 9% registrada no primeiro semestre, o que indica que até mesmo o chamado “luxo ostensivo” começa a sentir os reflexos do cenário macroeconômico adverso.
Retração do consumidor chinês abala expectativas
Historicamente responsáveis por cerca de 20% das aquisições de luxo no mundo, os clientes chineses reduziram o ímpeto de compra. A postura mais conservadora se reflete na performance regional: enquanto as vendas nos Estados Unidos avançaram 5%, a receita na Ásia (excluindo o Japão) teve retração de 5% no confronto anual.
Em conferência com o mercado, a diretora financeira da holding detalhou o quadro desafiador no Oriente. “Especificamente no terceiro trimestre, a Ásia foi penalizada por uma forte deterioração da confiança do consumidor chinês, impulsionada por fatores macroeconômicos, com um impacto tangível nas despesas discricionárias”, disse a diretora financeira Cecile Cabanis aos analistas.
Além da conjuntura econômica, o aperto fiscal de Pequim sobre os indivíduos de alta renda gerou apreensão adicional. Diante dos analistas, Cabanis admitiu que o fator “bem-estar” do público local acabou prejudicado. O setor ainda monitora desdobramentos de conflitos geopolíticos, como a guerra com o Irã, e sinais de desaceleração na economia norte-americana.
Desafios de imagem e próximos passos
Principal motor da LVMH, a Louis Vuitton também enfrentou turbulências pontuais de imagem no mercado chinês, incluindo atritos com consumidores locais após uma disputa de propriedade intelectual com a rede de bebidas Molly Tea, acusada de utilizar traços parecidos com os florais de seu tradicional monograma.
Diante das cobranças para recuperar o dinamismo da grife, Cabanis evitou comentar se haverá troca de liderança criativa, como ocorreu na Dior, mas pontuou a importância de equilibrar tradição e inovação. A executiva também afastou a possibilidade de aplicar “medidas drásticas”, descartando qualquer estratégia de rebaixamento de preços para estimular a demanda.
A perda combinada de valor de mercado das principais companhias europeias de luxo já alcança cerca de € 330 bilhões no acumulado do ano, com a própria LVMH encolhendo perto de 40%. A atenção dos investidores agora se volta para a divulgação de resultados de outras gigantes do segmento, como a Kering e a Hermès, agendadas para os próximos dias.
Fonte: Folha - Mercado