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Caderno Mercado

Inteligência artificial pode privilegiar currículos feitos com IA

Inteligência artificial pode privilegiar currículos feitos com IA

O escritório de advocacia Addleshaw Goddard, situado em Londres, enfrentou um dilema no início deste ano ao publicar uma oportunidade para o setor de TI no departamento de recursos humanos. O anúncio atraiu nada menos que 178 inscrições, um volume muito superior à média de duas dezenas registrada no ano anterior, impulsionado pela facilidade proporcionada pela inteligência artificial nos processos de candidatura.

Experimento de recrutamento com tecnologia Diante do grande volume de documentos acumulados e da necessidade de agilidade na seleção, a equipe de RH decidiu realizar um teste prático. O objetivo era comparar a eficácia de um agente de inteligência artificial com a análise tradicional feita por profissionais humanos na triagem dos perfis recebidos.

O sistema foi configurado na plataforma interna Microsoft Copilot da empresa, recebendo diretrizes completas sobre a vaga e os requisitos técnicos necessários. Após os funcionários reduzirem a lista para cerca de doze concorrentes, o agente automatizado e a equipe humana pontuaram os participantes de forma independente.

Divergências na seleção de candidatos Os resultados obtidos pelos avaliadores robóticos e humanos não coincidiram. O sistema automatizado priorizou currículos com descrições superlativas sobre feitos em tempo recorde, características típicas de materiais gerados com o auxílio de ferramentas tecnológicas.

Katherine Rathbone, chefe de RH da Addleshaw Goddard, disse que sua equipe tinha algumas teorias sobre o motivo disso. Para a gestora, as ferramentas facilitam a personalização, mas o comportamento do algoritmo pode ter sido outro. “Uma possível explicação é que, como o domínio de IA era um dos critérios, o agente pode ter interpretado indícios do uso de IA na elaboração do currículo como prova de domínio de IA”, afirmou.

Riscos e estudos sobre o viés tecnológico A gestora apontou ainda uma possibilidade mais perturbadora sobre a preferência por determinados candidatos apenas devido à participação de sistemas automatizados na escrita. Essa hipótese alinha-se aos resultados de um estudo preliminar sobre o comportamento de ferramentas de recrutamento.

A pesquisa simulou contratações em 24 áreas de atuação e concluiu que profissionais que utilizam o mesmo modelo de linguagem dos recrutadores possuem entre 23% e 60% a mais de chances de avançar na seleção em comparação àqueles que dependem de métodos tradicionais. A desvantagem humana mostrou-se mais acentuada em setores como contabilidade e vendas.

Embora o estudo ainda passe por revisão científica, um de seus autores, Jiannan Xu, diz que análises atualizadas continuam fornecendo indícios de que os modelos de IA “demonstram um comportamento de favorecimento a si próprios”.

Caminhos para mitigar o problema O cenário gera preocupações em um mercado onde candidatos e empresas utilizam tecnologias em lados opostos da seleção. No entanto, a pesquisa de Xu aponta que o viés pode ser reduzido em mais de 50% com duas medidas práticas: instruir os modelos a desconsiderar a origem dos textos e utilizar múltiplos sistemas de avaliação para mitigar distorções.

No caso do escritório em Londres, a vaga de TI foi preenchida por escolha da equipe humana, superando a indicação inicial da máquina. Para o futuro das contratações, o equilíbrio permanece indispensável. “Mas o julgamento humano continua sendo importante”, concluiu Rathbone.

Fonte: Folha - Tecnologia