Abstenção recorde em 2026: por que 33 milhões faltaram às urnas
Mais de 33 milhões de eleitores brasileiros deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno das eleições de 2026, marcando a segunda maior abstenção desde a redemocratização do país. Contudo, especialistas alertam que o alto índice não reflete apenas apatia ou rejeição à política nacional.
Perfil diversificado dos ausentes De acordo com o cientista político e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Jairo Nicolau, autor da obra “O País Dividido”, o montante de faltosos engloba perfis plurais e motivações distintas. Entre os ausentes estão desde cidadãos que não possuem obrigatoriedade de sufrágio até indivíduos distantes de seus domicílios eleitorais ou afetados por falhas cadastrais, a exemplo de municípios com mais registros do que habitantes reais.
Em entrevista ao g1, o pesquisador afirmou que não é possível determinar quantos brasileiros deixaram de votar simplesmente por falta de interesse na eleição.
“A gente não sabe porque não há pesquisa”, disse. Segundo ele, os institutos costumam concentrar seus levantamentos nas intenções de voto, e não nas razões que levam parte do eleitorado a não comparecer às urnas.
Fatores logísticos e estruturais Levantamento do Datafolha apontou que viagens, questões de saúde, desinteresse e trabalho encabeçam a lista de justificativas para a ausência. Relatos de eleitores também expõem barreiras burocráticas na transferência de títulos e falhas de acessibilidade nos colégios eleitorais. A eleitora Bianca Dantas relatou frustração após não conseguir acessar sua seção devido a uma cirurgia recente no joelho. “Quantas pessoas deixaram de votar por essa mesma razão, né? Pessoas que sofreram acidentes, enfim, e isso foi muito frustrante para mim. Estar ali na porta e ter que virar as costas e ir embora sem poder votar”, disse.
No dia 4 de outubro, a abstenção alcançou 33,4 milhões de pessoas, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto, superando o patamar registrado em 2022.
“A gente está nesse patamar, mais ou menos 20 pontos, porque eu acho que tudo indica que é o padrão brasileiro de ausência das urnas”, afirmou.
Distribuição regional e foco dos candidatos Em meio ao cenário, lideranças políticas intensificaram apelos por mobilização para o segundo turno. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou na Avenida Paulista incentivando a busca por eleitores faltosos, Flávio Bolsonaro reuniu-se com prefeitos paulistas para alertar sobre a necessidade de manter o engajamento da base.
No recorte regional, o Nordeste apresentou a menor taxa de abstenção do país, com 18,4%, seguido pelo Norte, com 19,4%. Em contrapartida, Sudeste (22,7%) e Centro-Oeste (21,7%) concentraram as maiores proporções de ausências, com o Sudeste respondendo por 15,1 milhões de faltosos.
Fragilidade do voto obrigatório O estudo da FGV aponta que jovens de 18 a 29 anos e idosos acima de 70 anos formam grandes blocos de abstenção. Para Nicolau, a facilidade de justificar o voto por aplicativo de celular e o valor reduzido da multa eleitoral — fixada em R$ 3,70 — enfraquecem a eficácia prática da legislação vigente.
“É um voto obrigatório no papel, mas está se tornando um voto facultativo na prática”, afirmou.
Fonte: G1 - Política