Companhias aéreas enfrentam alerta de crise severa e risco de falências
As empresas aéreas globais estão se preparando para enfrentar uma fase financeira extremamente delicada nos próximos meses, impulsionadas pelo encarecimento contínuo do combustível. Líderes do setor advertem que a combinação de custos operacionais elevados, demanda sazonal fraca e o impacto de conflitos geopolíticos no Oriente Médio coloca a aviação comercial diante de uma de suas provações mais duras.
Cortes de capacidade e ameaça de insolvência
Grandes nomes do mercado europeu, como a alemã Lufthansa e a britânica easyJet, já iniciaram a redução de suas operações para atravessar o período de baixa temporada. Analistas e financiadores apontam que o risco de quebras neste inverno — período que se estende até o final de março — supera o de anos anteriores, lembrando precedentes recentes como o colapso da Spirit Airlines e o fim das atividades da airBaltic.
“Neste inverno veremos empresas de pequeno e médio porte enfrentando dificuldades e tendo problemas para sobreviver”, disse Luis Gallego, presidente-executivo da IAG, proprietária da British Airways. “Algumas estarão muito perto de desaparecer ou desaparecerão.”
Para mitigar os danos financeiros, a easyJet dobrou os cortes previstos e retirou cerca de 700 mil assentos de sua programação. Somente no mês de setembro, o setor eliminou 6 milhões de assentos em voos planejados para o trimestre final do ano, segundo dados consolidados da Cirium. A Lufthansa adotou estratégia semelhante, mantendo em solo aeronaves de grande porte, como os modelos Airbus A380 e Boeing 747, difíceis de preencher durante a estação fria.
Impacto do petróleo e pressão sobre os custos
A disparada nos preços do querosene de aviação tem pressionado severamente os balanços financeiros. A Delta Air Lines revisou bruscamente para baixo suas estimativas de lucro anual após calcular um impacto adicional de US$ 6 bilhões decorrente da alta do petróleo.
“Esta é uma crise em toda a sua dimensão”, disse Michael O’Leary, presidente da Ryanair. “Todos vão sofrer no ano que vem… estamos apenas tentando enxugar a operação o máximo possível.”
O executivo também estimou que a pressão sobre os preços do combustível deve persistir por vários anos. A situação é agravada pelo vencimento de contratos de proteção de preços, conhecidos como hedge, obrigando as empresas a renovarem suas proteções em patamares financeiros muito superiores aos habituais.
“Mesmo para quem compra combustível com seis meses de antecedência, hoje o preço ainda está em US$ 1.200, US$ 1.300, um patamar incrivelmente alto”, disse Kenton Jarvis, presidente da easyJet, em comparação com o nível habitual do setor, de cerca de US$ 700 por tonelada.
Negociação de frotas e resiliência no setor premium
Diante da escassez de caixa, empresas de leasing relatam pedidos para o adiamento de pagamentos de arrendamento de aeronaves, com solicitações de postergação por vários meses ou reduções de cerca de 10% nas faturas mensais. Paralelamente, companhias aceleram a aposentadoria de aviões mais antigos e menos eficientes.
Apesar do cenário adverso para voos de curta distância e de lazer, o segmento de viagens corporativas de longa distância permanece estável e lucrativo.
“Quanto mais premium for a operação, menor o impacto”, disse Carsten Spohr, presidente da Lufthansa. “Acho que meus colegas do setor de baixo custo estão mais preocupados.”
A volatilidade do mercado e a imprevisibilidade econômica continuam ditando a estratégia das principais companhias aéreas globais, que apostam na flexibilidade operacional e na redução drástica de despesas para atravessar o período crítico.
Fonte: Folha - Mercado