Juiz de Pernambuco relata xenofobia em hotel após não conhecer prato gaúcho
O juiz do Tribunal de Justiça de Pernambuco Francisco Tojal Dantas Matos, originário de Aracaju, relatou ter sido alvo de xenofobia em um estabelecimento de hospedagem na capital gaúcha. O incidente ocorreu na noite de uma terça-feira, logo após o desembarque do magistrado no Rio Grande do Sul, onde participaria de compromissos acadêmicos.
Contexto da agressão verbal Conforme o relato do magistrado, a situação começou no momento em que ele conversava com uma funcionária do local sobre opções do cardápio.
“A atendente gentilmente me sugeriu um prato típico, conhecido como à la minuta, que eu não conhecia. Então eu perguntei maiores detalhes para ela sobre o prato, quando eu fui interrompido por um homem que estava na mesa vizinha, que falou em tom de deboche: de que país você é, que você não conhece à lá minuta”, relata Tojal.
O prato tradicional mencionado consiste em uma preparação semelhante ao conhecido “prato feito”, reunindo elementos como arroz, feijão, batata frita, salada e carne bovina ou de frango.
Reação e ofensas Após ponderar que não possuía obrigatoriedade de conhecer pratos regionais de outras localidades, o juiz passou a ser alvo de ataques verbais mais intensos pelo desconhecido.
“Esse cidadão se levantou, se sentiu no direito de me xingar, de falar vários palavrões e ainda de me associar a um determinado grupo político, porque o momento de polarização e intolerância é imenso no nosso país.”
O magistrado cumpriu sua agenda na quarta-feira à tarde, ministrando uma capacitação para operadores do direito na Escola da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. Para ele, a motivação central da abordagem agressiva esteve ligada à sua identidade regional.
“Ficou claro pra mim que o incômodo dele não era pela comida, era pelo meu sotaque, pela minha origem. O Sul é terra de gente acolhedora, mas nenhum cidadão brasileiro deve ser hostilizado no seu próprio país por ser de onde é. Eu sou nordestino com muito orgulho. Preconceito é crime e isso não se negocia”, desabafou.
Investigação e apoio institucional O magistrado formalizou um boletim de ocorrência policial e contou com suporte de órgãos de segurança do tribunal estadual gaúcho. Entidades jurídicas emitiram comunicados oficiais repudiando veementemente o episódio de discriminação regional.
“A Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (AJURIS) e a Escola da AJURIS manifestam seu veemente repúdio ao episódio de xenofobia relatado em Porto Alegre pelo juiz de Direito Francisco Tojal Dantas Matos, do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Atitudes discriminatórias motivadas pela origem regional são inaceitáveis e incompatíveis com os valores democráticos e com o respeito à dignidade humana. Nenhuma pessoa deve ser alvo de hostilidade, constrangimento ou violência em razão de sua procedência. Diante do ocorrido, a AJURIS e a Escola da AJURIS manifestaram solidariedade e prestaram apoio integral ao magistrado, inclusive em âmbito jurídico. As instituições esperam que os fatos sejam devidamente apurados e que sejam adotadas todas as providências cabíveis. A magistratura do Rio Grande do Sul tem compromisso com a defesa dos direitos humanos e com a construção de uma sociedade plural, na qual as diferenças sejam reconhecidas e respeitadas e não haja espaço para qualquer forma de preconceito. Daniel Neves Pereira — Presidente da AJURIS Clarissa Costa de Lima — Diretora da Escola da AJURIS”
O Tribunal de Justiça de Pernambuco também manifestou apoio oficial ao magistrado, enfatizando a necessidade de apuração rigorosa e o combate intransigente a práticas discriminatórias.
Fonte: SERGIPE