Brasileira destaque global em inteligência artificial aponta caminhos contra o preconceito
A democratização do ensino tecnológico para minorias e a implementação de plataformas de código aberto são apontadas como estratégias essenciais para reduzir a dependência de grandes conglomerados internacionais no ecossistema de inteligência artificial, promovendo maior diversidade na área.
Reconhecimento internacional e inovação contra o ódio
A perspectiva é defendida por Veronyka Gimenes, travesti e cofundadora da Código Não Binário, iniciativa voltada à inovação e à garantia de direitos digitais. Apelidada de “Travahacker”, a brasileira integrou a seleção da revista Time entre as cem personalidades mais influentes do mundo no setor de IA em 2026.
A publicação evidenciou a tecnologia concebida por Gimenes junto a Amanda Claro, também cofundadora da entidade: a TybyrIA. Trata-se de um sistema de inteligência artificial de código aberto capaz de reconhecer e categorizar grandes volumes de manifestações de preconceito na internet direcionadas à comunidade LGBTQIA+.
Ação judicial e moderação de conteúdos
As informações geradas pela ferramenta fundamentaram uma ação civil pública ajuizada pela Código Non Binário e outras instituições contra Meta, Google, X e ByteDance. O litígio acusa as empresas de estimularem a hostilidade contra pessoas LGBTQIA+ e pleiteia uma reparação financeira de R$ 100 milhões.
Além da disputa legal, a inovação pode ser incorporada a plataformas de busca, redes sociais e extensões de navegadores para auxiliar na filtragem de publicações prejudiciais. “As inteligências artificiais dão esse poder de interpretação para as máquinas. Então, você pode embutir nosso sistema numa rede social, no buscador, pode criar uma extensão de navegador [que] embaça aquele tipo de conteúdo para que a pessoa não seja exposta àquilo”, explica Gimenes.
A idealizadora ressalta que a agilidade com que o sistema foi construído evidencia o desinteresse das corporações pelo assunto. “Se a gente fez em poucas semanas um modelo de IA capaz de detectar esse ódio, por que não é feito pela big tech, que tem muito mais dinheiro, muito mais equipe?”.
Trajetória na programação e ativismo
O estopim para a criação da TybyrIA ocorreu em 2024, após a repercussão de um trecho de podcast da organização que provocou uma intensa onda de hostilidade contra pessoas trans. A carência de normatização e a ineficácia dos mecanismos convencionais de denúncia motivaram a elaboração da alternativa. “A gente precisa denunciar coisas como infração de direito autoral para conseguir derrubar um conteúdo, porque se você denuncia como discurso de ódio, não acontece nada.”
Originária do Cambuci, em São Paulo, o contato da especialista com a informática iniciou na infância por meio dos videogames. Na juventude, compreendeu programação para executar jogos mais exigentes e concluiu capacitações em manutenção de hardware. Graduada em desenvolvimento de software pela FIAP, ela ressalta o impacto dos movimentos de software livre e da cultura digital em sua carreira.
Em 2014, integrou a equipe de desenvolvedores encarregada da plataforma do plano diretor da capital paulista durante a administração do ex-prefeito Fernando Haddad. Anos mais tarde, em 2021, a vivência da transição de gênero alterou sua visão profissional. “Você não tem como fazer uma transição sem questionar completamente a própria visão de mundo, sem questionar muitos sistemas éticos, morais.”
Descentralização e o futuro digital
Foi nesse contexto que surgiu a Código Não Binário, congregando inovação, direitos digitais e a inserção de mulheres, pessoas LGBTQIAP+, negras e com deficiência. Para Gimenes, a pluralidade de quem desenvolve a ferramenta determina o desfecho entregue. “Para mudar o cenário de tecnologia, a gente precisa mudar quem está fazendo essa tecnologia, quais são as identidades, quais são as classes, quais são as raças das pessoas por trás da produção tecnológica.”
Enfatizando a relevância dos softwares livres para evitar monopólios e o consumo elevado de data centers, a profissional apoia a apropriação democrática desses recursos e menciona o modelo chinês como referência para encarar a inovação como infraestrutura básica. O propósito principal é transpor o colonialismo digital e assegurar que coletivos historicamente marginalizados edifiquem o futuro da inteligência artificial.
Fonte: Folha - Tecnologia