Rassvet: a tentativa da Rússia de criar sua própria Starlink na Ucrânia
A Rússia está acelerando o desenvolvimento de sua própria rede de internet via satélite após sofrer um revés no campo de batalha na Ucrânia no início deste ano com a perda do acesso clandestino aos terminais da Starlink.
H2: O valor estratégico da conectividade na guerra O serviço da empresa SpaceX, do bilionário Elon Musk, é conhecido por sua capacidade de prover acesso rápido e estável à internet em quase qualquer lugar do mundo. Amplamente utilizado pelas tropas ucranianas na guerra, ele é fundamental para a operação de drones e mísseis e a comunicação tática.
Num campo de batalha moderno, é preciso enviar e receber grandes volumes de dados, como transmissões em vídeo de drones. E problemas de conectividade, ainda que durem segundos, podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma operação.
“A Starlink era tão importante que os russos tentaram durante muito tempo usá-la para seus próprios propósitos militares”, afirma à DW Clayton Swope, diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). “A Rússia não tinha nada que pudesse competir com isso.”
H2: Conhecendo o projeto Rassvet É aí que entra a Rassvet, aposta do Kremlin para reduzir sua dependência de tecnologias estrangeiras e obter capacidades semelhantes às oferecidas pela Starlink. A rede alternativa é desenvolvida pela empresa russa aeroespacial Bureau 1440, e já preocupa autoridades ucranianas.
A Starlink funciona como um provedor de internet baseado no espaço. Diferentemente dos sistemas tradicionais, que utilizam um número relativamente pequeno de satélites em órbitas elevadas, a rede da SpaceX opera milhares de satélites na órbita baixa da Terra.
Pequenos terminais em solo se conectam ao satélite que estiver passando sobre a região, permitindo acesso à internet mesmo quando torres de telefonia são destruídas, cabos de fibra óptica são cutados ou tropas operam em áreas remotas. No início do conflito, a Ucrânia chegou a levar vantagem sobre a Rússia justamente porque tinha acesso à rede Starlink e a Rússia, não.
H2: Desafios técnicos da constelação russa No final de março, a Bureau 1440 levou a órbita seus primeiros 16 satélites de banda larga, capazes de prover conexão de até 1 gigabite por segundo. Hoje já são 31, e a meta é ter 292 deles em operação até 2027, segundo a Radio Free Europe.
Mas a capacidade dos satélites Rassvet é muito inferior à dos equipamentos mais modernos da SpaceX, como aponta o astrofísico e historiador espacial Jonathan McDowell.
“A atual geração da Starlink tem cerca de 100 gigabits por segundo. A próxima geração terá dez vezes mais do que isso. Até mesmo o sistema OneWeb, disponível na Europa, tem cerca de 10 gigabits por segundo. Portanto, o Rassvet está na extremidade inferior da capacidade desses sistemas de megaconstelações de internet por satélite”, explica.
Além da capacidade inferior, o Rassvet também enfrenta desafios técnicos. Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), a primeira leva de satélites lançada em março atingiu a altitude prevista, mas um segundo lançamento, realizado em julho, ficou abaixo do esperado, alcançando entre 300 e 400 quilômetros de altitude.
Swope vê com ceticismo as ambições do Kremlin de criar sua própria Starlink. “A grande questão é se isso acontecerá. Nem sequer é quando”, afirma. Ele aponta que alguns satélites tiveram “falhas completas” e não estão “nas órbitas corretas esperadas”. “Neste momento, a utilidade de um sistema como esse é muito pequena, oferecendo uma janela muito curta de cobertura apenas algumas vezes por dia sobre a Ucrânia”, diz.
H2: O alerta das autoridades ucranianas Apesar das claras limitações do programa russo, McDowell avalia que a rede não precisa necessariamente igualar a Starlink para ter utilidade militar, podendo ajudar em comunicações e coordenação de drones.
O vice-chefe da inteligência militar da Ucrânia, Vadym Skibitsky, alertou que a Rússia estaria acelerando a implantação da nova rede.
“Eles já começaram os lançamentos muito mais rapidamente do que o planejado originalmente. Por enquanto, o sistema só pode operar de forma intermitente, quando um satélite passa sobre nosso território. Quando a Rússia implantar uma constelação completa de satélites, o sistema funcionará como a Starlink. Já há discussões sobre como neutralizá-lo”, afirmou.
H2: Nova corrida espacial global A guerra na Ucrânia reforçou a percepção de que a internet via satélite se tornou um ativo estratégico e que é arriscado depender da infraestrutura de uma única empresa privada.
A China desenvolve suas próprias megaconstelações, a União Europeia investe no projeto Iris² e a Amazon trabalha no Projeto Kuiper. Para Swope, a dependência global da SpaceX ainda é grande, pois existe essencialmente apenas um concorrente na Europa, a OneWeb, que não tem nem de longe a mesma capacidade.
A expansão de projetos como Rassvet, Iris² e Kuiper sugere o início de uma nova corrida espacial focada no controle das comunicações globais e das capacidades militares associadas a elas.
Fonte: G1 Economia