Em 1992, o jornalista Ubiratan Brasil, o Bira, foi até o Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, para acompanhar uma sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Naquele ano, o evento chegava à 16ª edição e exibia uma produção estadunidense com pouquíssima público na sala.
O início de Quentin Tarantino no Brasil
O filme era Cães de Aluguel e o diretor, até então um desconhecido, era Quentin Tarantino. “Eu fui em uma sessão em um sábado de manhã, ao meio-dia, lá no Masp. Se tinha 16 pessoas era muito. E o diretor do filme estava lá. Antes de começar o filme, ele elogiou a gente e disse: ‘Obrigado. Lá fora está um sol, é sábado e vocês estão aqui dentro vendo o meu filme’”, relembrou o jornalista.
Na saída, o cineasta conversou com os presentes. “Naquele dia a gente conheceu Quentin Tarantino que jamais voltará a ter um filme [exibido] com apenas 16 pessoas presentes em uma sala. A mostra trazia isso, essas boas surpresas que depois se confirmariam no futuro”, afirmou Bira, destacando que “Ninguém tinha ouvido falar dele”.
Origem do festival na ditadura
A primeira edição ocorreu em outubro de 1977, organizada pelo crítico Leon Cakoff, então diretor do departamento de cinema do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), para celebrar os 30 anos da instituição. A aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa lembra que o evento foi fundamental durante o regime militar. “Apesar de poucos filmes, comparado ao que ela agora se tornou, esta foi uma janela extraordinária para o mundo que não conhecíamos. Aquele era um período de ditadura e tudo era censurado. O Cakoff contornou aquela situação magistralmente e foi aprimorando a mostra a cada ano”, pontuou.
Vanda também destacou o acesso inicial às obras. “Era um portal de alumbramento. Quem experimentava aquela vivência, via de regra, retornava nos próximos anos. Nos primórdios, os filmes eram de graça”, disse, acrescentando que a iniciativa funcionava como “uma usina de ideias”.
Ela ainda ressaltou o papel formador da iniciativa diante da falta de recursos tecnológicos da época: “Vários ‘mostreiros’ [como são chamados os frequentadores do festival] se profissionalizaram como diretores ou críticos de cinema. Até o ano 2000, quase não tínhamos acesso à internet. Isso era algo restrito para a área de tecnologia. Então, o diferencial da mostra sempre foram os filmes fora do mainstream [da corrente predominante]. Ela era um canal para a gente ter contato com imagens, linguagens e comportamentos de outras paragens e, sobretudo, ter a percepção crítica além da tela”.
Resiliência e alcance global
Ao longo de cinco décadas, a programação passou por momentos grandiosos e fases menores devido a patrocínios, mas nunca deixou de acontecer, nem mesmo durante a pandemia de covid-19. Renata de Almeida, diretora do festival, explicou a versatilidade do projeto: “Acho que o segredo da mostra é que ela é elástica, ela pode ser mega ou enorme, como neste ano em que estamos comemorando 50 anos, como ela também pode ser pequenininha. Eu acho que a gente tem que saber dançar conforme a música”.
Renata está à frente da gestão há décadas, tendo iniciado sua trajetória na 13ª edição, em 1989. “Estou há 37 anos fazendo isso”, declarou. “Primeiro começou como um trabalho, teve o divertimento e agora é um pouco da minha vida. Tudo junto e misturado, não dá mais nem pra saber o que é uma coisa ou outra”, concluiu.
Nesta edição comemorativa, o evento apresenta 380 produções de 93 países, além de exposições, debates, shows e o lançamento do livro Antes Que idiom Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, escrito por Renata. “É um livro sobre as histórias da mostra, mas também sobre a minha vida e sobre as minhas histórias dentro da mostra. É um livro de encontros. Foi também um retrospecto de entender várias coisas que aconteceram com a vida e me revisitar em outras épocas e outras idades”, finalizou.
Fonte: Agencia Brasil



