A partir de 2027, a ala conservadora passará a controlar o Senado Federal, provocando uma mudança profunda na agenda da Casa Alta do Congresso, independentemente de quem assuma a Presidência da República no segundo turno. Com essa nova maioria, o grupo ganhará poder de influência sobre as nomeações do governo federal, capacidade de pressionar o Supremo Tribunal Federal e forte apelo para impulsionar pautas de costumes e uma segurança pública mais rigorosa.
Diferenças regimentais da câmara alta Para além dos números, a dinâmica institucional do Senado traz uma característica singular em comparação à Câmara dos Deputados: as comissões temáticas possuem poder terminativo. Isso significa que os projetos podem ser aprovados diretamente nesses colegiados, sem a necessidade de passar pelo plenário. Contando com 28 senadores, o PL terá musculatura política suficiente para assumir o comando dos colegiados mais estratégicos, a exemplo da Comissão de Constituição e Justiça e de Assuntos Econômicos.
Renovação e perfil dos novos parlamentares Os nomes recém-eleitos trazem um perfil consideravelmente mais combativo do que a atual bancada conservadora. A partir de fevereiro, figuras como Marcel Van Hattem (Novo-RS), Carlos Bolsonaro (PL-SC), Gustavo Gayer (PL-GO), Deltan Dallagnol (Novo-PR) and Carlos Jordy (PL-RJ) ocuparão a tribuna e integrarão Comissões Parlamentares de Inquérito.
Em contrapartida, deixam o parlamento outros nomes ligados ao conservadorismo ou ao movimento de renovação de 2018 que optaram por se aliar ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fornecendo sustentação política nos últimos anos, como Soraya Thronicke (PSB-MS), Carlos Fávaro (PSD-MT), Fabiano Contarato e Alexandre Giordano (Podemos-SP).
Impacto na governabilidade e no Supremo Tribunal Federal Caso Flávio Bolsonaro (PL) confirme o favoritismo e vença a disputa, a base aliada terá volume político suficiente para pressionar o STF, articular uma reforma no Judiciário e aprovar emendas à Constituição. Por outro lado, caso ocorra uma reviravolta favorável ao atual presidente, o chefe do Executivo enfrentará barreiras até mesmo para aprovar projetos de lei ordinária.
O PL assegurou 28 cadeiras e formará a maior bancada isolada, recebendo ainda o reforço de seis parlamentares do Republicanos, três do Novo, dois do Podemos e um setor mais alinhado ao bolsonarismo no PP. Enquanto isso, figuras tradicionais como Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) enfrentam forte desgaste após a campanha e precisarão recalcular a rota para manter relevância política.
Controle de agências e embaixadas O novo bloco majoritário terá força numérica tanto para barrar quanto para avalizar diretores do Banco Central, embaixadas, agências reguladoras e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além de participar ativamente das escolhas para a Suprema Corte.
Diante desse cenário, o Palácio do Planalto precisará adotar perfis estritamente técnicos e intensificar acordos com o centrão para emplacar seus nomes. No atual mandato, a gestão petista já havia sido obrigada a ceder metade dos postos para indicações senatoriais, deixando órgãos acéfalos e acumulando derrotas emblemáticas no tribunal superior.
Caso a ala bolsonarista consolide sua liderança institucional, a articulação com o centrão para a escolha de dirigentes econômicos e reguladores poderá ser evitada. O tema é monitorado de perto por agentes econômicos e pelo mercado financeiro, especialmente após episódios recentes de fragilidade institucional nesses órgãos.
A articulação também alcança a política externa e o comando das embaixadas. Há planos para adotar diretrizes semelhantes ao modelo norte-americano de diplomacia, priorizando indicações de nomes externos à carreira tradicional e promovendo mudanças nas promoções e nos objetivos externos do país, cujos nomes precisam obrigatoriamente passar por sabatina e aval do Senado.
Perspectivas para o judiciário e investigações A nova configuração conservadora também alterará a correlação de forças em relação ao STF. Embora o número de parlamentares favoráveis ao impeachment de ministros ainda não alcance o patamar exigido para afastamentos, a bancada já dispõe de força ampla para instaurar CPIs voltadas a investigar a Corte e aprovar emendas constitucionais que restrinjam as prerrogativas do tribunal.
Fonte: Política - Folha




