Um levantamento realizado pela plataforma Sentinela revelou a publicação de 13 mil comentários ofensivos com alvo definido em contas de candidaturas LGBT+ desde o início do período eleitoral. O monitoramento analisou mais de 307 mil interações no Instagram que apresentavam potencial de violência.
Metodologia e atuação coordenada
Para alcançar esses resultados, a ferramenta utilizou uma metodologia que combina coleta automatizada, classificação e inteligência artificial generativa, desenvolvida pelo Instituto Plena Cidadania (IPC). O estudo identificou mais de 11 mil contas diferentes envolvidas nas agressões, além de evidências de atuação coordenada por parte de perfis específicos.
“Quando tem a mesma mensagem repetida por 63 contas em um intervalo muito curto de tempo, como a gente verificou contra uma candidatura de Goiás, a gente tem forte indício de que isso foi coordenado. Isso pode ser uma combinação de pessoas ou automatizada”, avalia Gui Mohallem, da direção executiva do Instituto Plena Cidadania, em entrevista à Agência Brasil.
Perfil dos alvos e recortes demográficos
O mapeamento demonstrou que a violência política recae de forma desproporcionada sobre determinados grupos. Até o momento, 92,7% das agressões registradas atingiram candidaturas de mulheres LGBT+, enquanto 83,6% tiveram como público-alvo pessoas negras LGBT+.
“Essa violência que a gente está verificando é uma violência de gênero e está acontecendo com muitas mulheres na política e não só as LGBT. Denuncia uma questão da democracia porque ser mulher e candidata é igual a sofrer ataque e violência? O custo de se colocar para ser candidata é naturalizar que vai sofrer violência e receber ataques?”, questionou Gui Mohallem.
Responsabilidade pública e medidas legais
Diante do cenário de hostilidade digital, os responsáveis pelo estudo questionam o uso de recursos públicos em campanhas que propagam ódio. Em setembro, o Instituto Plena Cidadania protocolou uma notícia-crime na Justiça Eleitoral contra três candidatos a deputado federal por ataques discriminatórios.
“O dinheiro público vai continuar sendo usado para financiar crimes na internet? É a pergunta que a gente faz”, alerta.
“É isso que a gente está defendendo com a Sentinela para visibilizar o problema e como ele está acontecendo de maneira constante”, apontou.
Canais de apoio e expansão internacional
Além do monitoramento público, a iniciativa recolhe denúncias privadas por meio de prints enviados por lideranças e oferece suporte psicológico gratuito e sigiloso para as equipes afetadas por meio do canal Cuida Mais.
“Nela opera sessões de terapia sigilosas e gratuitas. A pessoa faz um cadastro, mas logo ele é anonimizado. A gente tem uma parceria com uma clínica com todos os profissionais LGBT e a equipe que atende as candidaturas é treinada por nós em assuntos ligados à política. Isso é muito importante”, explicou.
Por fim, o projeto se prepara para expandir a atuação para fora do país, com negociações em andamento para implementar a tecnologia na Argentina e no México a partir de 2027.
“A importância de fazer isso articulado na América Latina é porque o grupo antidireitos e antigêneros está organizado internacionalmente e a gente continua com respostas locais. É preciso que a gente se articule também regionalmente para dar uma resposta à altura para a ameaça organizada e comum”, defende.
Fonte: Agencia Brasil




