A soberania das urnas corre o risco de ser capturada pelo fundamentalismo, com o avanço de grupos que utilizam o fervor religioso como estratégia eleitoral em uma disputa sem limites.
A expansão global do fanatismo religioso
Enquanto o passado recente exibia cenários de maior separação entre dogma e poder em diversas regiões do planeta, a atualidade testemunha uma forte onda de infiltração da fé nos governos e Parlamentos. O Brasil caminha perigosamente rumo a esse abismo impulsionado por lideranças políticas que instrumentalizam o sagrado.
Históricos banhos de sangue motivados por conflitos confessionais, como as guerras religiosas na França do século 16, motivaram a construção de conquistas essenciais para o Ocidente, como a laicidade do Estado e a tolerância. Contudo, exemplos recentes em locais como Cabul, Teerã, Jerusalém e Washington demonstram que tais pilares constitucionais permanecem frágeis.
Estratégias de manipulação da fé nas urnas
A instrumentalização da religião na política brasileira ganhou impulso com os cultos promovidos por Michelle Bolsonaro no Palácio do Planalto em 2022, cujo propósito, segundo palavras da ex-primeira-dama, era purificar um palácio “consagrado a demônios” em gestões passadas. Na corrida pelo poder, o campo governista passou a adotar táticas semelhantes, misturando desinformação e símbolos religiosos para atrair o eleitorado.
Essa dinâmica desrespeita a Constituição de 1988 e o princípio do Estado laico, estabelecido em 1890, que garante a separação entre o poder público e as instituições religiosas privadas como base para a liberdade de crença.
Isenções, palanques e o papel do Judiciário
As igrejas acumulam vastas isenções fiscais concedidas por governos e parlamentares, transformando púlpitos públicos em verdadeiros palanques eleitorais. A tensão atinge patamares críticos quando campanhas políticas utilizam boatos para inflamar rivalidades sectárias, contando com a complacência e o engajamento de redes de desinformação.
Nesse cenário de polarização, magistrados do Supremo Tribunal Federal adotam posturas ambíguas sobre liberdade de expressão e censura, enquanto investigações policiais passam a atuar sob suspeita de manipulação de fatos. Na busca implacável pelo voto, os atores políticos ignoram as consequências de desestabilizar as instituições republicanas.
Fonte: Política - Folha




